PRETO NÃO BRILHA



Quantos personagens pretos você conhece? Protagonistas. Quantas vezes você imaginou o protagonismo de uma história com um preto? E em quantos momentos foi fácil ver aquele personagem secundário, preto e com descrições muito semelhantes a um escravo usado para o trabalho braçal?

Esses padrões estabelecidos pela nossa própria imaginação fazem parte do racismo enraizado na nossa cultura e em como, com o passar do tempo, deixamos de perceber questões importantes – como a exclusão de um ser humano por cor. Logo, ainda que lutemos contra o preconceito em nossos discursos e em algumas de nossas ações – e, sim, é importante lutar – ainda temos que modificar o principal elemento para combater o racismo: nós mesmos.

Nosso imaginário é branco. Somos condicionados a imaginar personagens brancos, loiros, de olhos azuis, corpo sarado... dentro de padrões estéticos, ditos, aceitáveis pela nossa sociedade. Durante séculos permitimos que outros ditassem como seriam os comportamentos, as vestimentas, a maneira de falar... e nos tornamos o que mais temíamos: mais do mesmo – ainda que tentássemos nos destacar.

Levamos histórias, escrevemos histórias, contamos histórias, ilustramos histórias com personagens brancos. Romper essas barreiras ultrapassa a justificativa de: “mas esse lugar...”, quando a escolha de onde se passa a história pode esconder o preconceito. Em diferentes momentos, lugares, viagens, passagens... há um preto secundário agindo como o escudo, o empregado. Claro, podemos pensar em autores, personagens, pessoas que vão contra ao protagonismo ofuscado pelo racismo enraizado. No entanto, está claro que a barreira para a desconstrução ainda é grande e bastante resistente.

A sociedade entendeu que por fazermos todos parte de uma comunidade, a mesma comunidade poderia ditar e impor as regras que, na verdade, só atendiam a uma parcela – e normalmente a parcela que, acho difícil, não entende as dificuldades das minorias. Sequer para e tenta ter o mínimo de empatia. E, assim, é bem fácil taxar a luta de outro quando você não entende os pesos que o outro carrega.

Nossa história está marcada por protagonismo preto e manchada de branco. A história da nossa Nação, principalmente, está marcada por massacres, estupros, exclusões e tudo o que mais pode ferir os direitos humanos, os direitos de ser de cada um de nós. Os pretos foram silenciados com correntes, marcados com ferro em brasa, açoitados, vendidos como produtos... e há quem diga que a escravidão acabou quando aquela tal lei foi assinada.

Ledo engano. Os pretos ainda estão condenados pela escravidão do preconceito racial, preconceito de classes... e condenados à velha visão de que só podem ser respeitados quando ocupam um cargo importante, quando se destacam de alguma maneira depois de se esforçarem bem mais do que os demais para conquistarem um lugar na sombra – porque ao sol estão sempre e debaixo de sol tentam fazer sua história, enquanto os demais desfrutam de sombra e água fresca de não saberem as dificuldades de nascerem com pele preta.


Sendo assim, voltemos a questão central: já imaginou seu personagem favorito preto hoje?



Por Marianna Roman

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